terça-feira, 16 de dezembro de 2008

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Moça do banco - Reconvite

Sentada ali, desde sempre, a moça já fazia parte da paisagem como integrante da praça, como o banco, como o poste, como o jardim, como as pedras, como a fonte, e como os pombos alimentados pelos casais doces de velhinhos.
Sentada ali, não mais observada pelos curiosos, não sendo mais alvo das conversas das vizinhas futriqueiras, dos pedidos dos mendigos, das explorações dos canalhas, da insistência das crianças, sentiu-se melhor.
A moça do banco nunca quis trazer pra si a atenção alheia, mas apenas a de quem tanto esperava. Tanto tempo, tanta coisa, tanta história, tanto de tanto, de tudo.
Mesmo com todas as intempéries, mesmo com as feições diferentes dos tempos de outrora em que ainda tinha esperança e desejo de tudo, apesar dos horrores, apesar das desistências, apesar das incoerências, ela morreria ali, prometendo sempre voltar se acaso precisasse sair, prometendo sempre cuidar do futuro que pudesse surgir, prometendo sempre proteger as histórias prometidas, as sensações veladas, os códigos, os planos, os desenhos e os sentimentos.
Sábia moça do banco, sábia, sensível e sensitiva, sabia que valia a pena, qualquer que fosse o resultado. Sabia que tinha nas mãos, nos olhos e no peito o mais valoroso dos sentimentos, que nem mesmo o sangue poderia conferir ou controlar. Valeria a pena, mesmo que sem benefícios, continuar.

Eis que ele ouviu suas preces lá de longe, pois as fazia também, e apareceu no horizonte distante, mais perto que nunca.
Ela, o convidou a sentar, mais uma vez.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

"E com você me sinto bem"

Quem sabe se é chegada a hora; ela nem tem relógio no pulso, o da parede anda sem pilha e o que funciona não informa nunca a hora certa.
Quem sabe se é chegado o sentimento; ela tem se deixado levar pela vontade constante e pelo incrível bem-estar que as realizações têm lhe proporcionado.
Quem sabe se é chegada a realidade; ela tem sentido todas as sensações que os cinco sentidos do corpo são capazes de perceber e mais tantas sensações fenomenais que os sentidos da alma são capazes de revelar.
Quem sabe? Ela sabe.
Quem mais sabe? Quem quer ver.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Tomara-que-caia

Seus olhos atentos, intrigantes e provocadores mais pareciam querer entregar todo o desejo, mas, em si, havia um inquietante medo; seu afilado nariz traduzia uma prepotência adorável, sem demonstrar qualquer arrogância; seus lábios bem desenhados e avermelhados tentavam balbuciar qualquer palavra enquanto os dentes não paravam de mordiscá-los; seus cabelos presos revelavam um fino e altivo pescoço; seu colar brilhante não era capaz de ofuscar o encanto dos ossos salientes da clavícula e dos ombros alinhados que se contorciam em si; suas mãos entrelaçadas na altura do coração apresentavam as palpitações do músculo vital de maneira muito mais sutil que a frequência das batidas aceleradas; suas pernas cruzadas, mesmo em pé, certamente significavam alguma retração inoportuna; e seus pés quietos, apenas porque já não podiam se mexer.
Com a luz da noite saída da janela detrás de si, se fez sombra, intentando estar sempre com quem ali estava diante. Um sopro de vento duradouro contornou seu corpo, desenhando as curvas que o vestido simples e comportado queria esconder.
Até as denominações das matérias colaboravam para magnetizar as almas e, revelando tudo o que já se havia esboçado, o vestido "tomara-que-caia" finalmente caiu.

sábado, 29 de novembro de 2008

Não me deixe só

Não me deixe assim tão só, meu bem. Eu posso não me segurar.
Não confie tanto em mim. Depois que você sumiu por todo aquele tempo, eu já não sou mais tão confiável.
Eu descobri tantas coisas na sua ausência. Eu conheci pessoas que me lembravam você, pessoas que lembravam a mim e pesssoas que, simplesmente, não lembravam ninguém. Reconheci pessoas de que eu me lembrava e pessoas que lembravam de mim. Descobri vontades guardadas na escuridão do meu ser, vontades que surgiram do nada, vontades latentes, vontades calientes, vontade de tudo, vontades da alma. Eu vivi momentos intrigantes, confusões dinâmicas, conflitos engraçados, beijos roubados, beijos doados, danças diferentes e festas cheias de gente.
E você não estava aqui.
Mas eu preciso confessar, extasiada, que quando vem me visitar, toma conta da minha vida. Quando chega em minha casa, esta vira sua. Tem de mim tudo que eu posso oferecer e até o que eu não quero dar. Faz dos meus segundos a dúvida cruel e gostosa se vou te ver quando anoitecer.
E logo some outra vez. Ai, me perco até no que pensar: se melhor seria não ter aparecido nem pra me cumprimentar, quanto mais pra querer, por seu mundo, me conduzir e me levar.
Pois lhe digo, meu bem, que aquela mocinha que a tudo quis, de bom grado e incondicionalmente, lhe entregar, aqui mais não há.
Venha quando puder, sempre que quiser pois, enquanto aqui estiver, quero ser tua mulher, mas não suma de repente, é que minha vontade se retrai automaticamente, e logo ela pode desaparecer pra sempre.
Fique pertinho daquele jeito, que eu me deixo comandar. Posso até ser superveniente, se isso te agradar. Mas jamais me deixe só que eu não posso mais parar, que eu vou continuar, que eu vou te procurar em tantos quantos eu encontrar. Eu sei, não vou achar, é você quem tudo tem pra me completar, mas que custa tentar?
Não me deixe só, me tome em seus braços e se delicie deitado e confortável em minhas pernas. Fique pertinho daquele jeito, pois é você quem eu quero sempre rente ao meu peito
.

Vanessa da Mata - Não Me Deixe Só

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"Eu não tenho o que escrever".





























- Pronto, está escrito!

[Passe o ferro quente que as palavras aparecerão. Na minha caneta tinha suco de limão]

domingo, 26 de outubro de 2008

Laranjeira


Ah, minha flor de laranjeira, tens tu o melhor dos aromas. Quaisquer de tuas variações transmitem a mim a idealização de um lindo campo florido e perfumado.
Chego a sonhar que sou menina de tranças correndo pelo laranjal a enfeitar os cabelos com as florzinhas que o vento não deixou vingar - coisa que nunca fiz - e, quando com sede, a retirar o suco de seu fruto colorido.
De doce a ácido, quaisquer dos teus sabores me alimentam. Enchem-me de nutrientes tão peculiares que nenhuma outra fruta híbrida saberia ter; protegem-me dos perigos que as intempéries do tempo certamente me causariam; e, sobretudo, divertem-me quando me lambuzo, sem vergonha.
Teus cheiros, tuas cores, teus sabores, tuas texturas. Todos os meus sentidos aguçados e, só depois de tanto sentir, caio em algum simbolismo.
A representação da pureza que os mais velhos vangloriavam-se ao casar, a simplicidade do fruto híbrido que é mais valoroso que tua fusão, o montante de células individuais num todo consistente, a singeleza de tua existência viçosa e eu, como mera espectadora, apenas finjo que ajudo a natureza ao regar-te por amor, sabendo, entretanto, que as flores delicadas, perfumadas e brancas se tornarão frutos suculentos, coloridos e viçosos
invariavelmente.


Uma homenagem a Laura Rebouças.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Era o dia de fazer coisas diferentes.
Ela bem que tentou ir à Igreja. Na verdade, só saiu de casa por conta dessa idéia, mas até a Igreja estava fechada.
Passou, então, um delineador preto para os olhos, não esqueceu da máscara para cílios à prova d'água, achou um batom quase-vermelho que não fez diferença alguma e foi a um bar.
Talvez fosse mesmo o dia de fazer coisas diferentes.
- Que tal um novo nome?

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Papo temporal

Fitei o relógio naquela parede, por horas.
Estava conversando com o tempo para fazê-lo esquecer de trabalhar. Queria distrai-lo e, no fim das contas, convencê-lo a parar de uma vez.
Falamos de várias coisas, dos quadrantes solares, da rotação dos planetas, dos céus, dos nascimentos por ai.
O ponteiro das horas me causava alguma tranquilidade e esperança de que eu o convenceria, o ponteiro dos minutos era um pouco mais duro na queda e insistia em me desafiar, mas o ponteiro dos segundos adorava ver meu desespero ao caminhar intransigente.
Frente a frente, o que era uma conversa informal tornou-se um duelo.
Intransigente ao extremo, nada do que eu dissesse o faria parar. E eu, sem mais, passei a implorar, sem vergonha.
Chorei, sentei no chão, olhei para baixo e o escutei. Seu som que deveria ser inquietante, me acalmou. Eu dediquei alguns daqueles tons ritmados para pensar.
Pensei alto, bem alto, mas não foram os meus pensamentos que chamaram atenção. Meu coração, em compasso sonoro diferente, emitia um som infinitamente mais poderoso.
Por fim, vários estalos. Corri pela casa e todos os relógios foram quebrados!

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Moonlight sonata

Beethoven - Moonlight Sonata

Fecha os olhos, abre os braços e concentra-se.

Cada nota extraída do piano forma, em torno dela, um ser que a beija e a conduz dançante pela sala vazia.
Olham para ela apenas os morcegos no telhado. Tudo se desfaz e ela só sente as vibrações sonoras adentrando por seu corpo, elevando-a ao êxtase que só algo divino seria capaz de proporcionar.
A música, que não parece ter fim, se esvai pelos cômodos da casa, hipnotizando até mesmo os animais de estimação. Tudo que se embasar em estima há de ser invadido pelo conteúdo de uma obra fenomenal de um gênio surdo do som.
A sensibilidade da origem da música é absolutamente adequada para os sentimentos da mulher que dança sozinha, à noite.
Nem mesmo a lua brilha no céu. Essa noite não tem a luz da lua e jamais terá outra vez. Dali em diante, a lua é só um imenso pedaço de pedra que não engana mais ninguém fingindo ter luz. E o sol, iluminador, não há de brilhar onde já está claro!


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Na varanda da cama II



- Que pena! Eu nem pude perceber que você já partia, mas quando acordei, por todo o meu corpo em euforia e meu coração ressoando carinho, pude jurar que você esteve aqui.

sábado, 4 de outubro de 2008

Na varanda da cama

Ela levanta do sofá em direção a varanda enquanto ele, insuportavelmente, fuma. Não resiste e, mesmo com toda a fumaça, segurando a respiração, o abraça pelas costas e cheira seu pescoço, procurando a posição perfeita para senti-lo um pouco mais.
Um pouco de atenção e um beijo na bochecha desesperam o coração dela que não sabe mais controlar pulsações. Tentando disfarçar o coração desarazoadamente acelerado, desabraça-o para observar os carros insignificantes que passam pela rua durante à noite.

Passado o sonho, acorda com a lembrança mais adorável de todo o dia anterior, sendo o suficiente para que acorde muitos outros dias e fique na cama para sentir saudade do dito dia, dele, do carinho e a lamentável inexistência de força para tê-lo daquele jeito todos os dias.
Com uma determinada certeza, torce para que os dias posteriores não lhe sejam inseguros como foi este, pois já não importa se seria bom ou ruim se instabilizar.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Sem coração

O coração que vai na bandeja de prata minuciosamente talhada nas bordas, segue pulsando.
Passa pelos corredores do castelo, faz serviçais abaixarem suas cabeças, cavalheiros pararem de beber vinho e cortesãs deixarem de dançar. Maior que a curiosidade é a surpresa por tamanha crueldade.
Quem carrega a bandeja sabe da preciosidade que sob sua responsabilidade se encontra. Destinado àquela finalidade, preferia ser escravo na pedreiras a serviçal no castelo. Tal obrigação de grande porte não é capaz de conferir honra alguma. Ainda assim, segue entre as pilastras, entre as pessoas e pelos próprios sentimentos, segurando as lágrimas da tristeza de reconhecer que aquele pequeno músculo foi retirado do seu lugar, e que aquele coração logo vai se desfazer.
Não se sabe se é silêncio demais ou se o som emanado do músculo pulsante penetra descomunalmente por todos os outros corações, destroçando intrigas, desfazendo agonias e acalmando os indivíduos.
Os aposentos mais escuros, por onde passa, são tomados pelo fenômeno da luminescência. Parece que tudo ganha luz própria por alguns instantes, e a bandeja brilhosa é capaz de cegar a quem olhar atentamente.
Todos que veêm, são hipnotizados pelo brilho, pela magnitude, pelo som e pela tristeza. Todos que veêm, seguem numa espécie de escolta divina.
Aquele sádico criminoso distraído pelas cortesãs aos seus pés, braços, cabelos e colo, ao ver sua encomenda mais desejada, agressivamente, retira todas as moças da vida num só gesto.
Tirano soberano que a tudo consegue, definitivamente tem diante de si o que mais quis. Satisfeito com sua conquista, chama o cavalheiro que lhe trouxe o tesouro almejando conferir os maiores méritos, mas lhes são entregues apenas a armadura e a espada do cavalheiro que se matou logo depois de chegar com o tesouro ao castelo e dizer suas últimas palavras:

"Aqui está o coração da dama mais bela que já vi. [...] - e nos últimos suspiros - Ela se feriu sozinha e arrancou de seu peito nu a coisa mais inebriante que todos os reinos poderiam ver, depois de ler meu pensamento e ver meu tormento em ferí-la. Eu, tão indigno de viver, só pude enxugar sua única lágrima".

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Indolor

As escoriações sobre escoriações servem para estancar o primeiro sangue que escorre das costas deslizando pelas pernas. Tantas lembranças quantas forem as chicotadas, a dor serve a todos os seus propósitos: é preciso aprender.
Cabeça baixa, mãos atadas, joelhos confundidos com o chão, pele salgada.
Ajoelhada diante de forças cruéis, chorar é ter pena de si mesmo.
Mas, num instante, [...] se chora. Não como um bezerro desmamado, não como uma criança sem pirulito, mas como a mulher do capitão que navega ao comando do vento incerto. Cada lágrima, gota única, consegue fazer desmedida diferença naquele imenso mar, diante do qual acena e faz promessas.
E se chora pelo medo, pela saudade, pelo amor e, por fim, se chora por si mesmo.
Rosto molhado, lábios mordidos, garganta sufocada, olhos de apelação.
- Quem é meu carrasco?
Ele tem o rosto coberto, mas nenhuma máscara o tornaria menos familiar. Respeita-se, não se teme!
Aquele olhos apelantes só gostariam de saber o porquê. A garganta estrangulada pela falta de ar quer saber quem é. As pancadas no rosto, com o escopo de desfazer todas as insistentes dúvidas, desconfiguram as características naturais de quem sofre. Quem perdeu a face quer saber o que sente seu carrasco. Sem respostas, tem mais que o corpo desfigurado.
Com dor, se segura para não entregar a alma ao diabo. Acredita apenas no "acreditar". Já sabe das coisas ruins do mundo, já sabe das coisas ruins do seu mundo, já sabe das coisas ruins do mundo que um dia quis que fosse o seu.
Não perde o brilho, mas o esconde numa carapaça dura e resistente. Vira bicho, cria-se um exoesqueleto.
Esquece-se da dor do corpo que ainda sangra e padece pelas infecções, estas que o carrasco cuida apenas para ferir outra vez. Não delira quando em febre, não tem mais pensamentos para tanto e, quando adormece pelo cansaço, vai e volta ao purgatório. Só tem a certeza de que tudo vai ter fim, mas não conta tempo algum.
Continua ali, viva, voltada para si, sem sensores, sem sentidos.




O apanhador, se não pára de apanhar, logo desiste até de sentir dor.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Possessão

Ainda se sente na boca aquele gosto amargo do desejo e a saliva, que não perde o gosto ruim, é engolida nojenta. Nada desfaz esse sabor apodrecido, nem as doses mais fortes das destiladas dispostas e disponíveis no bar pessoal, nem o café amargo e forte, muito menos as passas adocicadas. Um pouco de disfarce e nada mais, todos os gostos são deturpados por aquele tão pavoroso.
Quanto à fumaça deixada no ar, impregnada na roupa - que merece ser lavada até desbotar -, melhor se adequaria se tivesse cheiro de enxofre, mas é cheiro tão peculiar que nenhuma memória seletiva ou amnésia aguda é capaz de vaporizar. É fétido!
Uma imundice domina até a criação mental e, se o coração não se sujou, a alma tão nobre e intensa se contaminou de algo torpe demais para acalmar o corpo num bom sono essa noite.
Quantas noites mais serão profundamente apáticas com a única reflexão quanto a um desespero sutil e controlado da desimportância de tudo?
Nem mil velas acesas com seus respectivos pedidos a deuses, santos, imagens, espíritos, ou qualquer das forças sobrenaturais do universo poderão acalentar o coração vazio. Nem mil rituais de purificação poderão amenizar a sujeira transmitida àquele corpo intocável/intocado. Quantidade de nada poderá alterar aquela sensação de pobreza, consumismo, impureza e asco.
Tamanha feiúra se contrapõe à beleza estonteante do ainda não-dito ser. Pois continuará anônimo, com pseudônimos, entupido de ânimo para tudo ter.
Eis uma força monstruosa, elaborada com partes minuciosamente selecionadas de insatisfação, frustração, impotência e tristeza.
Agora, pois, tudo é corrosivo, destrutivo, eis aqui um ente possuído

- pronto - para - possuir.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

- Perdi a mão?
Tudo desandou.
Bolo solado.
- Ainda queres teu pedaço?

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Ao desconhecido

Quando escrevi aquela carta,
queria confessar a vontade de me enconstar em teu peito,
sentir, na vontade de controlar meus impulsos, o seu jeito
e, então, dormir.
Quando escrevi,
queria apresentar o potencial que tinha de me envolver,
de me fazer desmanchar,
e de me prender.
Quando fui ao correio,
queria que me visse chegar
nas mãos do carteiro,
e quando chegasse,
queria poder lhe apertar
e em suas mãos me dissolver sem medo.
Queria ser tateada do mesmo modo
que se passam seus dedos
pelas letras que imprimi.
Sem almejar respostas,
escrevi.
Sem crer na presença a se sentir,
nem medi.
Sem querer,
esqueci.
Quando a carta chegou,
nem sei se pensou,
você não comentou
e me deixou por ali.

She - um bicho de incontáveis cabeças

Qual delas encantaria mais, a dominante desconhecia.
Era bem capaz de alguém amar a todas sem distinção, mas isso, em algum momento, haveria de causar ciúmes.
Expostas ao sol e à chuva, bem como a todas as intempéries, estiveram ali para serem escolhidas. Indicaram-lhes tantas vezes que seriam carregadas pelas mãos e motivadas por atos e gestos de afeto, que todas elas contiveram suas forças para não quebrar os grilhões apertados.
Expostas ao ridículo, fingiram não se importar com os assombros tidos diante de suas feridas.
Tanto tempo e todas, lado a lado, divididas e cheias de esperança por um objetivo comum.
Todas elas, uma só.
Esposta ao sol e à chuva, bem como a todas as intempéries, esteve ali para ser escolhida, presa por grilhões cortantes, com sua força sufocada.
Exposta ao ridículo, fingiu não se importar com os assombros tidos diante de sua alma ensanguentada.
Tanto tempo e tão só esperando.
Rompe os grilhões ensandecida e se abstém de tudo. Chega de tantas cabeças, chega de confusão.


Ela, e todas elas, um bicho de incontáveis cabeças, e um só coração.

domingo, 14 de setembro de 2008

Solo

Sem chão, flutua sem vergonha de mostrar vestes íntimas que o vento não deixa que o vestido esconda.
Fecha os olhos e alcança outra dimensão lembrando dos sonhos, lembrando dos planos.
Flutua embalada por notas musicais que saem de um instrumento cheio de estilo.
Flutua com a absolutamente divina tradução de um eterno sentimento.
Flutua inebriada com aquela sensação de início, meio e fim compactados por mãos sensíveis que tocam fios estirados e presos num objeto deliciosamente sensual.
Falta-lhe o chão.
Faltou-lhe aquele 'solo'.


Joe Satriani - A Love Eternal

sábado, 13 de setembro de 2008

Color-bars

E se ela acorda na madrugada alguma coisa a incomoda muito. Ela finge não saber que seu coração se enche de reflexões e sua mente de sentimentos. Inverte todo o funcionamento do organismo para tornar perceptível um metabolismo assustadoramente alterado. Os pernilongos lhe contam segredos que ela se nega a ouvir, enfiando-se debaixo do cobertor trocado da semana. O cobertor e o travesseiro têm cheiro de alfazema que sua mãe coloca sempre para fazê-la dormir melhor - as vezes acha que fica literalmente bêbada de tanto carinho - "flores no seu travesseiro, minha filha". Faz de conta que sonha acordada ao mensurar os pecados do dia e ao abraçar calientemente o travesseiro. Desiste da companhia das sombras que a luz e as janelas criam para assistir os humores da caixa colorida. Finalmente cochila. Nos primeiros raios de sol, abre os olhos e vê as melhores cores trancafiadas num eletrodoméstico nada útil. Volta a acreditar que também pode ter todas as cores dentro de si.

(de cima a baixo)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Cobrança de amor | - Quem espera?


Se ela desejou que todos vissem sua demonstração de amor, todos viram. - Aos olhos de quem sentia o mesmo, pareceu mais uma prisão e um pedido de reciprocidade.
Talvez o destinatário de todo aquele amor se sentisse melhor com toda aquela disponibilização.
- Aos olhos de quem sentia mais, pareceu, na verdade, um desnivelamento do amor próprio com aquele exposto.
Não foi possível discernir os sentimentos e intenções impregnados naquele ato público. - Aos olhos de quem sentia simplesmente, a pureza nobre e a nobreza pura não existiam ali.

O que mesmo aqueles olhos atentos viam/queriam ver?
Dúvidas há quanto a neutralidade das observações, mas o montante de perguntas não enseja a execução dos títulos de respostas. Afinal, quem poderia responder a indagações que nem mesmo os mais competentes puderam esclarecer? Nem mesmo os legitimados se oferecem a muito esforço.

Ao coração parecia, finalmente, que alguém ali estava contente. Que assim continuasse, então. Que as alegrias fossem muitas e que alcançassem o destinatário daquela declaração de amor que não seria expressa sequer pelos olhos atentos da moça distraída que também tinha lábios.

À mente, parecia que esperar não era viável. Não era válido. Não deveria ser necessário. Quem soube e observou, distraidamente, aquela demonstração pública de afeto - prestação de contas amorosas inequívoca -, acreditava piamente que o melhor seria andarem juntos, mesmo que não houvesse adequações para tanto.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Alquimia velha

"E porque parece tão perto o dia em que nada mais vai importar como tanta coisa já deixou de ser como era e, porque, com algumas restrições, nos tornamos real e reflexo “vivos” sem definir os papéis.
Por instantes, meus sentidos se aguçam ao sentir quando me “toca” e quando te sinto. Ressoa certo romantismo, o ambiente fica tomado por silêncios, olhares e risos. São as emoções, mais que somadas, confundidas pela intelectualidade das atrações.
O coração se une à mente se deixando comandar por dois alquimistas que tentam se definir por termo só! As essências coloridas e porções químicas e/ou mágicas se misturam, sem receita, reagindo e adaptando-se a cada experiência. Exalam perfume inodoro, borbulham silenciosamente, explodem sem iluminar e se colorem de transparência.
Os conceitos se fazem próprios e as fórmulas se definem por naturalidade como se simples fossem; as anotações escritas simultaneamente por caligrafias diferentes, temas controversos e assunto único gravam-se por códigos motivados por alguma espécie de censura.
Os olhos fechados, em sonho ou acordados, repetem e/ou prevêem cada reação com a mesma sensação da realidade; os ouvidos desejam os silêncios e as palavras sinceras concomitantemente; as mãos, os carinhos; os lábios, os beijos e as atenções aos sons; ...e os olhos, os outros!
Sem a necessidade de catalisadores, as experiências se dão com maior freqüência. O perfume inodoro é, então, cheiro de pele; as borbulhas, batidas aceleradas; as explosões, impulsos vorazes; ...e a cor, verde!
Os resultados parciais revelam a proximidade do produto final.
Ou, em termos pessoais, desenvolvem a possibilidade de AMAR".





De todo o simbolismo existente, aqueles olhos verdes foram a coisa mais encantadora que se pôde ver e sentir.

Fazia adentrar no corpo toda a esperança (verde); brotar uma incrível vontade de rolar pela grama (verde), depois de um pique-nique romântico; e querer se afogar no mar (verde), mesmo que turbulento.
Ignora-se a razão da emoção traduzida numa só cor.
E eu que achava que paixões eram vermelhas.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

- Minha blusa favorita desbotou

"Mulheres! Tisc, tisc", foi o que disse um rapaz que a viu comprando roupas!
Ela simplesmente ignorou para continuar escolhendo e criticando as peças.
Pôs defeito em tudo. A cor não combinava com sua pele, a estampa era brega, a gola era muito aberta, o decote era vulgar, não combinava com seu estilo, enfim, nada estava bom. Pior, era tudo "uma porcaria".
A mocinha que parecia asquerosamente vaidosa até que experimentou algumas coisas que fizeram a loja toda admirá-la, mas fazia expressão de nojo e jogava para lá.
Nunca foi tão chato fazer compras. Foi tão chato que nem disfarçou levando uma coisinha em agradecimento à atendente.
Andou por muitas lojas daquela via e nada.
Queria uma peça que a fizesse se sentir bonita e confortável, que o tecido não a incomodasse, que não precisasse usar sutiã, que pudesse ir em qualquer lugar e não parecer fora do contexto.
Vai entender o que ela pretendia com aquela ensandecida procura. Não procurava nada para determinada ocasião especial, mas precisava ocupar o lugar do armário substituindo aquela blusa favorita que desbotou!

domingo, 7 de setembro de 2008

Aniversário

- Um mês, Amor. Em breve, farei sexo com você!

Anotações

Ela até que tentou tomar aquele coquetel de remédios, mas cuspiu os comprimidos, querendo muito ficar lúcida e sentir cada sensação do dia.
Nem foi ao abismo como de costume, talvez aquela quantidade de remédio usada na semana tivesse efeito para mais de um mês.
Esqueceu de alguns controles e apenas se deixou levar pelas vontades do dia. Quer dizer, no fim do dia, estava querendo coisas demais, mas não estava impaciente o bastante para 'arrancar a blusa'.
Durante o sol a vista, tentou registrar as vibrações que sentia, mas se conteve em fazer anotações referentes ao que expressar:



Lembrar de:

a) Como abrir os braços e deixar o peito à mostra para que maior amor escorra por todo o corpo misturando-se ao chão imundo! - Era só uma escolha. Era mais uma escolha*;

b) Como sentir pavor da mediocridade ao seu redor e desesperar-se por não salvar os mais amados desse horrível fim! - Era uma vontade de isolamento;

c) Como as reclamações dos pais são sem sentido! - Era uma vontade de ser mãe;

d) Como a simplicidade alivia a alma! - Era uma vontade de se sentir leve
*;

e) Como a saudade corrói! - Era uma vontade de fugir***;

f) Como queria se aproximar da realidade! - Era uma vontade de experimentar;

g) Como queria dinheiro! - Era uma vontade de independência;

h) Como seu corpo estava reagindo! - Era uma vontade de se entregar (ou de tomar para si)*.

Escrever depois.



Ela só queria anotar. Sabia que tudo aquilo a incomodaria depois e ainda não era o tempo certo para desabafar.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O filho do estrangeiro velho

A imagem do filho foi ainda mais estimulante.
Já o havia visto quando ele acompanhava a sua mãe numa das visitas referente àquele processo, mas não deixei meus instintos e sentidos perceberam mais que a sua natureza introspectiva. Sentei mesmo ao lado dele e sequer nos olhamos nos olhos, talvez por uma mesma timidez. Só percebi que possuía barba espessa e cabelos bagunçados, assim como o pai, mas ainda cheio de cor negra própria da juventude.
Não utilizei-me dessa imagem na memória até que senti falta da presença doce e tímida quando da minha vez de visitar a mãe dele. Na oportunidade, analisei apenas meu objetivo profissional e o seu pai.
Eis que ontem tive a oportunidade de me apaixonar pelo filho do estrangeiro velho.
Com a minha mesma idade, era menor que eu - não me abati por conta disso -, uma pele branca, tão branquinha que contrastava maravilhosamente com os pêlos negros espalhados pelo corpo, principalmente com as sobrancelhas grossas e com a barba com ar de desleixo, e uns olhos perdidos e certeiros que eu já havia discriminado anteriormente. Foram os olhos que mais me chamaram atenção. Absolutamente bem desenhados e, acima de tudo, muito expressivos. Ele olhava para tudo com graça, do mesmo jeito que eu sinto olhar quando estou encantada e infantil. Olhava com timidez, mas sem desviar. Em todo aquele garoto/homem havia contrastes. Um misto de coragem e fragilidade, medo e certeza, dúvida e determinação.
Tive que me despedir apenas com os olhos, mas, usando óculos, impedi, propositadamente, que ele percebesse toda a minha observação e análise.
Ah, consegui pegar um olhar curioso direcionado a mim, quis saber o que pensava, mas era preciso seguir. Lembrei-me de balançar a cabeça em sinal de cumprimento, o que ele fez do mesmo jeito.

No alto da sala fechada, debatendo os resultados dos procedimentos que tinham sido feitos naquela situação, alguém bateu na porta.
Iluminou o lugar com aquela pele alva e me fez arrepiar com a respiração extremamente ofegante. Imaginei-o depois de atos amorosos que nunca penso, o que me envergonha bastante, não me impedindo, no entanto, de confessar.
Eu ainda nem tinha escutado sua voz, mas tudo aquilo que os sons das palavras do seu pai me causaram foi triplicado simplesmente pelo silêncio dele.
E mais uma vez tive que me despedir. Dessa vez, depois d'eu ter esquecido a minha timidez por um bem maior, qual seja, sua presença de forma mais marcante, cumprimentou-me de forma apropriada, mas ainda desengonçado.
Envergonhou-se por chocar seu rosto abruptamente com o meu, pediu desculpas e o som da sua voz correspondeu na totalidade a toda a expectativa do perfil que eu esbocei. Era grossa e segura, mas doce.







Eu deveria ter pedido o telefone...

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Inflamável

Uma sensação corrosiva rebaixou a alma elevada daquela doce e meiga moça.
Enquanto caminhava, desejava que todos os seres vivos, incluindo os fungos, murchassem e desfalecessem. Trazia consigo um ódio que deixava crescer sem alimentar.
Trancou-se no quarto há algumas semanas tentando se afastar dos transtornos que a habitualidade vinha lhe conferindo. Entretanto, não deixou de exercer suas funções, fazendo tudo da melhor forma, já que agora se manifestava uma organização devido a uma boa utilização do tempo.
Na verdade, a moça se impedia de ter muitos pensamentos a respeito do seu mais novo sentimento. Contudo, não expressando-o, guardava-o inconscientemente para o momento apropriado sem saber exatamente quando seria.
Dominava o tempo isolada lendo os livros separados há algum tempo e ouvindo as músicas daquela velha coleção de CD's.
Estava visivelmente frágil e chorou muitas vezes entre escritos, músicas e leituras. Quando não podia mais consigo mesmo, deitava na cama e felizmente dormia. Resumia sua vida àquele cômodo fazendo as coisas que mais lhe proporcionavam prazer.
Era claro que não queria nada além daquilo. Não queria que seu coração sofresse com os distúrbios que a vida social queria lhe imprimir/imprimia. Mas não era possível ficar ali para sempre e todas as vezes que precisou sair, mais algum acontecimento marcava sua alma de ódio.
A raiva inicial e sutil transformou-se em ódio progressivamente, como pôde definir sozinha. Não sabia se poderia com aquilo por mais tempo, mesmo assim se esforçava em manter a paz consigo e com os que estavam ao seu redor. Fazia questão de advertir aos mais amados da flama escondida que a qualquer instante poderia queimar.
Era bom tomar cuidado, segurando a si mesma, aumentava o potencial explosivo que ativaram dentro dela.

domingo, 31 de agosto de 2008

O estrangeiro velho

A imagem daquele senhor entrando pela sala mudou o meu dia.
Tinha os cabelos grisalhos e bagunçados; uma barba homogênea, espessa e grande; um jeito de andar sem pressa, não lento.
Era belo. Sim, trazia consigo uma beleza estrangeira, nada parecido com que eu pudesse comparar. Era alemão. Era um homem maduro comum, mas mexeu tanto com os meus sentidos que passou a ser especial.
Sentou-se de fronte a mim junto a outras pessoas numa mesa comprida. Vestia um conjunto de tom pastel, com alguns botões metálicos e bolsos grandes. Usava óculos que ofuscavam um pouco a cor dos seus olhos - não sei se eram cor de mel ou verdes e... fumava.
Poxa, ele fumava. Decepcionei-me ao vê-lo buscar um cinzeiro grande de barro. O vento não amenizou minha frustração e trazia a fumaça em minha direção.
Não suportei. Precisei sair mais frustrada ainda, já que era obrigada a me distanciar um pouco de toda aquela sensação de bem-estar que o ambiente proporcionava.
Distraí-me, olhando algumas peças de arte em cerâmica. Toquei algumas coisas na intenção de perceber poeira - essa mania se manifesta algumas vezes quando preciso não acelerar (o que é diferente de precisar me acalmar).
Não percebi o tempo que levou para ele tragar todo o cigarro, mas logo me acomodei no mesmo lugar.
Voltei a observar o senhor com mais cuidado. O fato de fumar chamou tanto a minha atenção que agora buscava qualidades para suprimir aquele defeito. Achei. Vi naquele homem muito tranquilo, uma pessoa honesta e cheia de ideais. Nada bossal, parecia ser mais da terra que qualquer natural do lugar. Pela primeira e única vez, o cheiro de nicotina foi... agradável (?).
Falou algo sobre a política local, mas eu não dei importância a isso mais do que o delicioso sotaque que meus ouvidos ansiavam em ouvir novamente toda vez que ele finalizava um pensamento. E as risadas, então? Ria um tanto atrasado de qualquer coisa engraçada, e eu não sabia diferenciar um riso maroto de um irônico.
Não. Eu não me apaixonei por um senhor de cabelos brancos. Apaixonei-me pela idéia de existir alguém assim.
Era artista. Trabalhava com esculturas de ferro e mecânica. Infelizmente, só passei um rabo de olho no seu ateliê.
Eu nem sabia que prestava atenção tão minuciosamente nisso tudo, mas, de repente, um estalo na minha cabeça fez com que elencasse todos os julgamentos e análises a respeito daquele adorável homem num só instante.
Meu coração sentiu-se vazio e eu pensei em inúmeras pessoas comparando-as com o senhor sempre a minha frente. Parei em alguns pensamentos, conferi algumas idéias e segurei meu coração para que ele não transbordasse carência naquele momento que a natureza ajudava a tornar incrível e ainda mais cheio de sensibilidade.
Entendi que vi naquele velho moço - acredito ser a melhor definição para aquele indivíduo que começava sua melhor idade - tudo o quanto uma pessoa precisa ter para que eu disponha a minha vida plena e inteiramente.
Finalmente, com um sorriso no rosto, quase adormecendo no carro, de volta para a rotina da minha vida, depois de todo o muito tão simples e tão significativo, concluí que abri meu coração. Senti-me livre, leve e feliz.

sábado, 30 de agosto de 2008

O cérebro é uma pista de dança


criação de Asagi Kamikakushi.

Ninguém ouve nada.

Está na sua própria boite.
Nem se balança.
Embalam-se as sinapses.
Tuntz, Tuntz, Tuntz.
O coração não segue o mesmo ritmo.
Tuntun, Tuntun, Tuntun.
Se entrar, deixe-o por último.


emoção de Memphistoeh.

Perdido


Paula Toller - Tudo se perdeu

Caminha só e traz consigo uma mochila com esforço, alternando a situação da carga e a posição do corpo.
Dá os passos mais tortos pelo caminho mais tortuoso; suja-se da poeira do lugar ermo se impregnando de nada.
Quantos pensamentos tem? Não pensa em coisa além de agir.
Age por impulso alienígena, que aquilo não pode ser coisa de animal algum que habite a Terra.
Desumano ou humano demais, é só um projeto para ser alguém, para ter alguém, para não ser ninguém.
Não conhece os detalhes da estrada que se aventurou cheio da esperança maldita de ser feliz. Ignora a possibilidade de voltar por medo e, quando se finge de destemido, justifica sua imobilidade pela rigidez do tempo.
Nem quando sente dor, pára. Insite numa busca de completar-se insensata. Será que não vê que não é rodeando o mundo que vai chegar ao lugar de origem?
Cada lugar, um algo a mais: fica repleto de tudo que há de menos. Cheio de solidão, dor, insegurança, medo, saudade...
Vai se envergando mais a cada passo. A mochila parece se encher em cada novo ambiente que não se diferencia muito do anterior. É inútil todo e qualquer ato. A postura não é mais autoritária e há tempo deixou de ser encantador.
Mendiga tudo que é passível de ser disponível. Mendiga até o que não pode. Piora em tudo, fica podre. Porco, nojento, grosso!

...

Não há nada na mochila. Foi apenas o jeito que achou para mascarar sua vontade de sumir com a idéia de aventuras a fazer e maravilhas a conquistar.
O vazio pesa. Enverga-se pois envergonha-se.

Não é mochileiro num lugar dotado de sentido, é andarilho perdido.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

- Acertaram-me!

Um projétil disparado por acidente a invade e se aloja no peito.
Dor que se suporta por pouco tempo e ela já aceita o fim.

Um gemido faz com que ele olhe para trás.
Um desespero faz com que se ajoelhe diante daquele corpo ensanguentado.


- Acertou-me!

Confere enlouquecido o revólver maldito.
Pensa em suicídio.
Não restam mais projéteis.


- Socorro! Alguém me ajude!

Silêncio.
Não existe nenhum som além do flamejar de uma fogueira de madeira, palha e papel e das poucas e já descompassadas
batidas de um coração em hemorragia.

- O que eu faço? Diz-me! O que eu faço?
- Arranca meu coração!!!

E continua.

- Fique com todo ele. Não faço questão. Não me serve para muito mais coisa além de tudo entre nós. Faça-me sarar! Pegue seu punhal, ponha-o em brasa e
...

Estanque... Estanque!

Mika - Happy Ending

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Suspiro de morte

Um suspiro de morte.

Um crime e aquele corpo foi deixado ali, desnudo.



"Moça não-identificada com aproximadamente 23 anos, morena, magra, estatura mediana é encontrada morta no jardim botânico municipal".

Todos os noticiários informam o crime naquela pacata cidade do interior.
Indigente, ninguém reconhece o cadáver.
Parecia que o corpo fora plantado na cena do crime para que a cidade omissa e retrógrada se manifestasse a respeito de algo. Os meninos fizeram alvoroço assustando as meninas; os homens comentaram sobre o desperdício de tão belo corpo; as mulheres desenvolveram um medo de andar pelas redondezas do jardim botânico; as beatas achavam uma pouca vergonha aquela multidão em volta de um corpo nu.
Os boatos corriam: era uma prostituta, era uma visitante, era a nova professora da escola que chegara antes do esperado, era uma selvagem do bosque. Milhares de teorias foram propostas, nenhuma fazia muito sentido.
Uma senhora de idade, maior conselheira da cidade, diante do corpo, indagada sobre o assunto, apenas cobre a moça nua com seu chale: "Ela sente frio".
As autoridades policiais finalmente retiram o corpo da cena do crime. Não houve muito a ser analisado ali. Não existiam indícios muito concretos que levassem à solução do caso.
As pessoas daquela cidade, apesar de quase nunca vivenciarem situações fora do normal, se esqueceram logo ali da moça nua e retornaram aos seus afazeres.
Restava fazer a autópsia.
Deitada naquela maca gelada, a moça permanece serena, muito embora seja clara uma profunda expressão de tristeza.
Com uma breve olhada, percebem-se cabelos negros e longos, olhos amendoados, boca carnuda, traços finos de alguém que poderia ter conseguido realizar qualquer vontade, pescoço comprido, seios firmes, cintura torneada, pêlos bem cerrados. Bonita!
O médico legista vindo da cidade vizinha distante até se comove diante daquela beldade. Qualquer um se sentiria atraído vendo aquela mulher nua, mas agora era só uma morta.
Fria. Fria. Roxa.
"O que se passou com você, moça? Quem foi capaz de cometer tão terrível crime?", o médico legista disse.
Nenhum sinal de agressão, nem estrangulamento, nem estupro, nem atentado violento. Nada. Os exames toxicológicos não confirmaram a suspeita de envenenamento. Hora de abrir.
Bisturi, afastador de costelas, um belo coração. Mãos cobertas de luvas brancas e limpas, olhos azuis atentos. Atenção, atenção. Um toque, uma pulsação.
Assombração, demônio, zumbi, milagre, emoção.
Ela cora.

Um suspiro da morta.

domingo, 24 de agosto de 2008

Organismo enganado

Encostada na parede daquele ambiente sonoro, multicolorido e impessoal, Marta busca as idéias que fogem diante da sua mais próxima companhia.
Nada se justifica na altura, no sorriso largo, nos olhos expressivos, na sinceridade, mas tudo se encontra no nível elevado sem razão, na alegria desmedida, na emoção instantânea, na canalhice e, sobretudo, nos suspiros e abraços repletos de intenção.
As brincadeiras provocam pensamentos em Marta que, se importando com todas as variáveis, faz cálculos de cabeça baixa. Procura a resolução da questão sem incógnitas que lhe desafiaram a resolver. Ela já sabe o que quer.
Quieta naquela parede, não ouve, não vê, não sente, concentra-se. Destaca-se da multidão que se embala ao som indefinido. Esforça-se para pensar, ao remexer um pedregulho no chão. Distrai-se. Abraçam-na.
Abraçam-na! Cheiram seu perfume doce, tocam-lhe as costas, beijam-lhe o ombro. Respiração ofegante, abraço impuro. Abraçam-na! Retiram-na do caminho dos pensamentos. Todos os atos estimulam os instintos. Ela se desprende daquele imenso e quente conforto rumo à sensação de fundir-se.
Quase totalmente maleável, deslizando por tecido epitelial diverso, sentindo célula por célula, rastejando calmamente até lábios de sorriso largo, uma mais forte oxigenação no sangue causada por uma única batida acelerada comprime a mente.
Engana-se. O corpo pede, pende, perde.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Uma cena


Sou eu a maior personagem de todas. Meu nome também começa com "M" e tem toda a especialidade do seu significado. Eu sou a atriz e a espectadora do monólogo que eu mesma fiz.
Tenho técnicas muito eficazes de assumir as personagens que também produzo e dirijo.
Vou ao teatro todos os dias e limpo cada cadeira vazia, vasculho cada canto, enrolo todas as cordas e sacudo todas as cortinas, já que também sou a zeladora do lugar.
Escolho cada figurino com muita atenção, porque todos eles poderão dizer por mim o que meus lábios sequer vão balbuciar.
No camarim, sento-me diante daquele enorme espelho que tem algumas lâmpadas queimadas. Ao meu lado existem flores que eu mesma encomendei do floricultor do outro quarteirão, também um singelo bilhete de admiração. Maquio-me, penteio-me, confiro os detalhes do figurino, emito sons esquisitos para esquentar a voz, dou as mãos ao vento, fecho os olhos e rezo: "...que tudo ocorra bem, que a casa esteja cheia e que eu não erre as falas".
Daí, os passos até o palco são inquietantes. Ainda tenho que abrir as cortinas.

...

O primeiro pé no palco range a tábua. Assustada, hesito em continuar.
De olhos fechados, tateio com os pés o caminho até o centro. Imagino que ninguém vai perceber minha timidez e meu temor e que farei com que acreditem que tudo aquilo faz parte do espetáculo.
Olho em volta rapidamente para ver se encontro alguém conhecido que me estimule a apresentar com mais intensidade. Infelizmente, a luz a mim direcionada atrapalha minha visão e tudo que eu vejo são vultos. Ignoro a agonia em não poder olhar profundamente nos olhos de alguém.
Um silêncio me invade de tal forma que desconsidero tudo o que já ensaiei. Improviso.
Falo só comigo, ou melhor, falo ali no palco com minha solidão. O momento de criatividade dura. É preciso ser breve antes que seja fastidiosa demais. Deixo de dizer certas coisas. Dou o fim. Apagam-se as luzes e não vejo ninguém.
O teatro está vazio, todo ele está vazio, nem mesmo alguém esperando para pedir informações que nada tem a ver com o espetáculo.
Fecho os olhos outra vez e, assim, dispo-me por completo. A maquiagem borrada deixa à mostra todas as dimensões do meu eu, todas as personagens reveladas.
Ouço palmas; o teatro está vazio; eu estou repleta de tudo.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Sonhos, para que mesmo?

Todos já dormiam, só ela estava acordada. E atordoada.
Vagou pela casa durante a madrugada, buscando algo que diminuísse sua angústia sem origem e distraísse seus pensamentos sem nexo.
Comeu quase todos os biscoitos do pote sem ter fome e sem sentir prazer. Só se ocupou, mastigando as guloseimas pequenas e crocantes.
Fez alguns barulhos na cozinha enquanto futucava a geladeira procurando as reflexões congeladas. Talvez desse certo se pusesse no microondas e as digerisse como se deve, mas resolveu só fazer um suco. O liquidificador zunindo em seu ouvido até que provocou certa sensação de alívio. Triturou, na verdade, algumas lembranças que sempre surgiam nos momentos parecidos com aquele.
Entalou-se com o suco que ficara grosso e consistente demais. Diluiu em água; esqueceu de pôr açúcar. Intragável, mas definitivamente tragado.
Duas horas da manhã e deitou-se na cama enrolada em dois cobertores. Enrolou-se em mil de tanto que rolou de um lado a outro, ao procurar a melhor posição.
As imagens do televisor ligado, os sons, as vozes dos atores dos filmes não se diferenciavam de mera estática. O esforço destinava-se à atenção para si mesma!
Desistiu de dormir, logo logo o despertador a alertaria do horário que começava sua rotina. Na verdade, não via mais utilidade em fechar os olhos. Já fazia parte da rotina não dormir.
...


Acordou, sem sobressaltos, certeiros segundos antes da ação desesperada do despertador.
A realidade não mudou em nada no intervalo de tempo do seu "piscar de olhos". Não se importou. Estava bom daquele jeito. Estava bem daquele jeito.


Sonhos, para que mesmo?

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Ex-possível

Os opostos se distraem,
Os dispostos se atraem.
Realejo, O teatro mágico.

Para quem não acredita que a virtualidade cria um mundo real mesmo que seja só imaginário, aqueles dois são a prova da existência de tudo.
Inseridos em mundos absolutamente diferentes, se encaixaram na regra de que os opostos se atraem e a oposição coroou a distração carente e divertida.
Ao narrar o quase-nada muito grande, acrescento que os distantes não se repelem diante de tamanha curiosidade circundante; ao narrar o tudo muito pequeno, revelo que o início e o fim possuem os mesmos propósitos e razões.
Dessa vez, não há como caracterizar pormenorizadamente os personagens ou elaborar reflexões profundas. A revelação de qualquer coisa acerca do (im)possível destroçaria a magnitude da simplicidade - chave, fundamento e base. Definições não são imprescindíveis nesse instante, apenas foi em momento final recente, por se entender que acordar é melhor que dormir.
Tanto de virtude que simplesmente é. A entidade não se nega a nada e, os entes se aceitaram sem certames além do cumprimentos identificadores de afeição.
E simplesmente foi a possibilidade que simplesmente passa como simplesmente chegou.
Ninguém simples mente, ninguém simplesmente desmente que ficou o simples em mente.

Detestável DISPOSIÇÃO geográfica repelente(sic!).

domingo, 17 de agosto de 2008

Devoradora de almas*

O mundo é grande...
... e cabe no breve espaço de beijar.
Carlos Drummond de Andrade

Não tendo vivido histórias infantis e mirabolantes quando a idade lhe proporcionava todos os meios, aquela mulher, depois de lamentações e tentativas frustradas de contradizer sua natureza séria e ranzinza, fez-se feiticeira.

Desenvolveu o poder comum da sucção de almas, fazendo-se mestra sem se deixar ser percebida. Junto com sua natureza que não se pode dizer precoce, mas simplesmente e desde sempre madura, estavam ali todos os efeitos de poderes naturais dos humanos que só os mais sensíveis não deixam atrofiar.
Tanto por sua natureza como por escolha, jamais soube na prática o prazer de cada idade. Bastou a ela que analisasse o comportamento humano rechaçando posturas e posições que qualquer um - tipo que não se insere - poderia/gostaria de estar.
Nunca foi seu propósito ser diferente, talvez pela crença de ser insanidade negar que a diversidade é mais-que-natural, sendo mesmo regra universal. Guiou-se pela simplicidade sem parâmetros absolutos. Fez-se só, sem esquecer e aproveitando das divinas e diabólicas influências das experiências que não pôde nem quis deixar de viver. Ainda assim, poderia ter sido eremita, tendo todo o talento para isso.
Quando o que possuía em si e ao seu redor diminuiu a frequência das rotações aleatórias e dinâmicas, elaborou, por alquimia, a fórmula de um seu elixir capaz de curar, fortalecer e rejuvenescer o corpo humano (semelhanças com a Pedra Filosofal é boa e mera coincidência). Aquilo que antes causava vertigem ao circundar-lhe, agora a iluminava.
Com dotes instintivos, criou substância atrativa para o fim a que parte de sua existência se destinava. Faltavam apenas alguns ingredientes: a graciosidade espontânea e a espontaneidade graciosa da juventude.
De repente, esporadicamente, passou a sugar pequenas doses de almas de todas as idades - só o acaso, muito favorável, lhe concedia o melhor viço dos mais novos. Nada assustador ou egoísta, muito menos fundamentado em pura ambição, já que fornecia em troca a segurança e a paz de sua natureza já descrita.
A feiticeira era uma devoradora de almas. Melhor do que se sentir jovem, era sentir sua alma desprendendo-se do contorno corporal para ajustar-se perfeitamente com aquilo que estava a somar. Para isso, só os lábios bastavam - emboram não fossem suficientes.

*verídico

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Aquele fumante

Tragava aquele cigarro com prazer, gozando a sensação de trazer pra si algo real, ainda que não palpável. Misturava-se à fumaça por se deixar tocar e tocava aquela porção de tabaco nos lábios ora levemente, ora ferozmente.
Sentia-se melhor desde o acendimento. O barulho do fósforo queimando, a sutileza do fogo, o assopro do vento apagando a chama, a insistência em foguear um outro palito, todo aquele ritual provocava ainda mais excitação.
Ah, a primeira tragada!
Não se previa o fim do cigarro. Saboreava cada parte como se pudesse distinguir e mensurar cada ingrediente nocivo e tranquilizante.
O modo como cruzava as pernas enquanto fumava lhe conferia um ar de poder e uma graça. Era quase um rei, coroado de fumaça.
Se muito ou nada pensava, não tem importância. Fumava. Tudo aquilo que adentrava permanecia por alguns instantes em seu corpo, e como era bom se sentir corroído, e como era bom se sentir corrosivo ao expelir o que ali não podia ficar.
As cinzas se espalhavam por qualquer lugar por sua insignificância. Mal sabia quem fumava que eram marcas mais-que-significantes.
No fim, sem que a chama alcançasse o filtro, no chão mesmo, ignora o toco daquilo que consumiu ao precisar.
Havia matado a vontade. Decerto e logo, ela iria voltar.

Uma homenagem a Evelon Oliveira.


Chama e Fumo

Amor - chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor - chama, e, depois, fumaça...

Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor - chama, e, depois, fumaça...

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor - chama, e, depois, fumaça...

Porquanto, mal se satisfaça
(Como te poderei dizer?...),
O fumo vem, a chama passa...

A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas... tem de ser...
Amor?... - chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...

Manuel Bandeira